sábado, 28 de novembro de 2009

fim do apartaide no bloco ilê aiyê

No carnaval de 2010 de Salvador será possível ver foliões de pele clara cantando "eu sou Ilê", como prega a letra de "O mais belo dos belos", um dos hinos do tradicional bloco Ilê Aiyê. É que ele, até então considerado o mais negro dos blocos afros, que não aceitava brancos entre os seus associados - diferentemente de outras agremiações, como os Filhos de Gandhy -, começa a abrir espaço para esse público.
  • 07.02.2001 - Juca Varella/Folha Imagem O bloco Ilê Aiyê não aceitava brancos entre os seus associados - diferentemente de outras agremiações, como os Filhos de Gandhy

O primeiro passo será dado no desfile da quinta-feira de Carnaval, dia da abertura oficial da festa na capital baiana, quando o Ilê colocará no circuito Barra/Ondina o bloco Eu Também Sou Ilê. A confirmação é do próprio presidente da entidade, Antonio Carlos dos Santos.

A medida, contudo, já começa a provocar polêmica. Há quem veja uma quebra na tradição da entidade de 35 anos e de seus objetivos de "preservar, valorizar e expandir a cultura afrobrasileira". Outros acreditam que a ação coloca fim a um separatismo na Bahia.

A militante Ana Rosa Azevedo se diz totalmente a favor da iniciativa e afirma que é preciso avançar no sentido de por fim à segregação em outras áreas. "Sou negra, e acho essa decisão maravilhosa. Precisamos caminhar para a igualdade. Isso que o Ilê está fazendo é avançar no processo da igualdade racial. Agora, precisamos continuar avançando nessa discussão, para que em breve não sejam mais necessárias políticas de reparação", afirma.

A professora da Universidade Estadual da Bahia, Ceres Santos, vê a inovação com certa preocupação. "Ainda não parei para fazer uma avaliação mais aprofundada desse fato, mas posso dizer que não é algo que me agrade, não. Acho tudo muito estranho e preocupante. Não gosto dessa medida", diz.

O presidente do Ilê defende a decisão tomada pela diretoria do bloco. Diz que, ao contrário do que sempre foi atribuído à agremiação, o Ilê nunca pregou o separatismo. "Ao contrário, nosso objetivo sempre foi o de chamar a atenção para as injustiças contra os negros. Um exemplo de que não separamos é a forma como agimos em nosso projeto social, nunca discriminamos. Atendemos crianças brancas, loiras, negras, de todas as raças", afirma.

Os projetos sociais do Ilê funcionam na sede da entidade, no bairro da Liberdade, considerado um dos mais populosos de Salvador. Mais de 4.000 jovens pobres são atendidos pelos projetos de cunho cultural e educacional.

Santos não nega que a decisão também tenha um cunho comercial. "Colocar um bloco na rua representa custos elevados com toda a infraestrutura necessária. Muita gente tem vários produtos para o carnaval, o Ilê, até então tinha apenas dois: o bloco Ilê Aiyê e o camarote. Agora criamos o segundo bloco, que irá atender ao contingente de admiradores que sempre nos procuraram querendo desfilar", explica.

O novo bloco desfilará um único dia na Barra, com 2.000 foliões - metade dos associados do Ilê, que sai em três dias do Carnaval. O preço do abadá também é diferente: enquanto o do Ilê custa cerca de R$ 450,00, o do Eu Também Sou Ilê ficará entre R$ 120,00 e R$ 150,00.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Saudades de sua voz
A vida cotidiana de Odele e sua filha Flavia – em coma há quase 12 anos, desde que seu cabelo foi sugado pelo ralo de uma piscina
Eliane Brum (texto) e Marcelo Min (fotos)
Marcelo Min
DE AMOR E SILÊNCIOS
Odele não sabe se Flavia ouve suas palavras ou percebe seus carinhos. Para ela, cuidar é a melhor forma de amar
Quando Odele sonha com a filha, Flavia tem 10 anos. A menina de cabelos longos, encaracolados nas pontas, fala sem pausas. Gosta de partilhar seu dia, contar as aventuras na escola, tagarelar sobre o futuro precocemente dividido entre uma carreira de administradora e outra de modelo. Abraça e beija muito. Dança, canta e toca teclado. Sua voz povoa o sono da mãe. Quando Odele acorda, porém, o silêncio continua lá.
Deitada na cama do quarto ao lado, Flavia tem os olhos abertos. Não pode mais falar e, embora possa ver, Odele não sabe se vê. A menina calou-se aos 10 anos, quando seu cabelo foi sugado pelo ralo da piscina do edifício onde vivia, em São Paulo. Em dezembro, no mesmo dia do aniversário da mãe, fará 22. Há quase 12 anos, Odele só ouve a voz da filha em sonhos. Agora é a mãe que parece se afogar ao despertar submersa na ausência da filha. “Ela tinha voz de sino”, diz. É dessa voz de sino que Odele sente mais saudade.
Assim se inicia cada dia. E cada dia em que Flavia não acorda é uma perda para Odele. Quem vai imaginar que a voz da filha, que às vezes perturba com sua premência, será um dia a maior saudade da mãe? Que aquelas histórias de criança, contadas quando falta tempo à mãe, seriam pagas com metade de uma vida ou uma vida inteira, se a mãe soubesse que poderia perdê-las?
É uma existência de subtrações e de delicadezas, a dessas duas mulheres. Só faz sentido porque Odele conseguiu fazer da história de dor também uma narrativa de amor.
Flavia abre os olhos durante o dia e os fecha à noite. No coma vígil, os olhos são vigilantes apenas na aparência. Não há consciência da dor ou do prazer. Flavia não se move, mas se sobressalta com ruídos mínimos e esboça sinais de sofrimento. Para os médicos, são apenas reflexos involuntários. Mas como ter certeza sobre quanto ela percebe? Sentiria Flavia, de algum modo, a presença da mãe, o toque da mãe, o amor da mãe? São perguntas que Odele Souza se faz, aos 60 anos. E responde “sim” a todas elas. Como não?
Devastada pelo silêncio da filha, Odele criou uma voz para Flavia. Há três anos ela criou um blog chamado Flaviavivendoemcoma (flaviavivendoemcoma.blogspot.com). Não é um nome qualquer. Poderia ser Flaviaemcoma, mas Odele escolheu a palavra “vivendo” para colocar entre o nome da filha e o planeta inalcançável habitado por ela. Mesmo que não a alcance, para Odele sua filha vive. E, quando Flavia sorri, não é um reflexo involuntário.
Centenas de pessoas no Brasil, em Portugal, nos Estados Unidos, na Colômbia, em Moçambique e na Espanha testemunham a delicada tessitura dos dias de Flavia e de Odele pela internet. E preenchem com suas vozes virtuais as paredes reais da casa de silêncios onde vive a “princesa adormecida”. Pelo blog é construída a narrativa amorosa da perda cotidiana de uma mãe diante da ausência do corpo presente da filha. “Construí para minha filha uma vida de detalhes”, diz Odele.
Tempos antes de calar-se no fundo da piscina, de onde foi arrancada pelo irmão, quatro anos mais velho, Flavia soube que a mãe de uma amiga presenteou a filha que menstruava pela primeira vez com um buquê de rosas vermelhas. Pediu: “Mãe, você me dá flores quando eu ficar mocinha?”. Odele prometeu. Imóvel e silenciosa, Flavia virou mulher sobre a cama. Cresceu 12 centímetros. Menstruou em coma, aos 13 anos. A mãe colocou rosas vermelhas a sua cabeceira.
No Dia das Mães, é Odele quem escreve à filha. “Vejo você em sua cama hospitalar, mas não sei onde você está, por isso, como há um ano, estou te escrevendo uma carta neste Dia das Mães em que eu adoraria receber o teu abraço, o teu sorriso, o teu carinho, mas tenho de me contentar com tua presença imóvel e silenciosa. É como se você não estivesse aqui. E lamento muito, filha, por nestes anos todos não ter conseguido entender o mistério do estado de coma, lamento por não entender o que ocorreu em seu cérebro, para saber exatamente onde você se escondeu, um lugar aonde nunca consegui chegar para te falar e fazer entender que, esteja onde estiver, você não está só, e que estou sempre por perto a lhe proteger.”
Há quase 12 anos, por volta das 18h30 de 6 de janeiro de 1998, Odele escrevia no computador quando ouviu os gritos do filho mais velho. Pensou: “O Fernando vai incomodar os vizinhos”. Quando olhou pela janela do 8º andar, viu Flavia estendida no deque da piscina do condomínio. A filha tinha descido duas horas antes, de maiô preto, a toalha sobre um ombro, para brincar com o irmão e alguns amigos na piscina de 95 centímetros de profundidade. A menina tinha 1,50 metro. “Tchau, Mami, tô indo pra piscina”, disse. Foi sua última frase.
Odele desceu pelas escadas. Correndo. Quando alcançou Flavia, ela já não estava lá. Só abriria os olhos 16 dias depois. Nunca mais daria qualquer sinal de consciência.
Meses depois, Odele começou a buscar as causas no fundo da piscina. Dividia seu dia entre os cuidados com a filha no hospital e o posto de secretária executiva numa multinacional. Voltava para casa, vestia um maiô e mergulhava na piscina, em pleno inverno, com uma boneca de longos cabelos. Noite após noite, investigava o ralo. A perícia da Justiça deu razão à mãe: a bomba de sucção instalada pelo condomínio era potente demais para as dimensões da piscina. Odele levou o condomínio e a fabricante do equipamento ao banco dos réus.
Quando a filha completou oito meses de coma, Odele disse ao médico que a levaria para casa. Se Flavia pudesse sentir o cheiro da comida, ouvir a voz do irmão, o som dos chinelos da mãe no assoalho, quem sabe não acabaria por despertar? Nesse tempo, Odele sentia tanta dor que, palavras dela, se confundia com a dor. “Eu era uma dor ambulante”, diz. “Observava o ipê florindo-se de amarelo na janela e sentia raiva. Por que só minha filha não floresceria?”
Odele descobriu que o tempo da solidariedade passara. Não porque as pessoas se tornaram indiferentes, mas porque é difícil suportar uma dor que não acaba. “A dor da gente precisa deixar de ser ostensiva para que não nos tornemos insuportáveis para o outro”, diz. “Depois de dois anos, amigos passaram a atravessar a rua quando me viam. Não eram más pessoas, apenas não sabiam mais o que me dizer.”
Um ano depois do acidente, apareceram os primeiros laudos médicos. E a palavra que, ainda hoje, devasta Odele: irreversível. A mãe recusou-se a aceitar. Iniciou uma busca em que caiu em mãos de todo tipo. Escreveu a um lama do budismo tibetano. Peregrinou por igrejas de denominações variadas e centros espíritas. Passou por médiuns com apregoados poderes de cura e também por médicos que ofereciam tratamentos “revolucionários”. Todos lhe prometeram um milagre, no mesmo tom casual com que garantiriam o nascimento do sol no dia seguinte.
Ao levar a fotografia de Flavia a um médium que diz incorporar um famoso médico alemão, Odele ouviu: “Que menina bonita. Vamos tirá-la do coma”. Ela acreditou. Sempre acreditava. Passou seis meses atravessando a cidade para receber injeções espirituais na nuca. Da médica de uma universidade paulistana, ela escutou: “Em 15 sessões ela já vai dar sinais de retorno”. Não havia “talvez”, “quem sabe”. Só certeza.
A cada sessão, Flavia era espetada com cerca de 30 agulhas de acupuntura. A Odele, a médica pedia que fincasse uma agulha em cada dedo da mão e do pé de Flavia até que brotasse uma gota de sangue: “Energia negativa”. “Eu espetava chorando”, diz.
Quando as 15 sessões terminaram, a médica disse: “E se você parar agora e ela despertar na 18ª?”. Odele já tinha “e ses” demais em sua vida. “E se o prédio não tivesse piscina? E se eu tivesse ido com Flavia tomar sorvete naquela tarde? E se...?” Sem poder suportar mais um, ela seguiu com o tratamento. Um dia a médica provocou uma queimadura na pele de Flavia. Só quando queimou a menina pela segunda vez, Odele entendeu que era hora de parar. Havia sido a 54ª sessão.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Consciência Negra

Surpreende que a Bahia, estado cuja capital é a cidade não africana de maior população negra do mundo, não tenha ainda instituído o 20 de novembro como feriado, a exemplo de outras capitais brasileiras (cerca de 435 municípios brasileiros adotaram o feriado de 20 de novembro). Seria esse mais um sinal do racismo inerente a cultura baiana, já materializado (e fartamente noticiado) em racismo institucional mais de uma vez na história recente de nosso estado? A Bahia é um estado que se orgulha de suas raízes negras ou apenas busca capitalizar a influência africana na construção da cultura baiana cuidando de manter a grande população de negros que temos subjugados e à margem da sociedade? Seria a negação do feriado de Zumbi dos Palmares uma demonstração de lealdade ao mártir branco, Tiradentes?

IGOR MORENO

Lula oferece jantar baiano para líder palestino

Ambos se encontraram em Salvador na noite desta quinta-feira
Do R7
O presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, recebeu um jantar típico baiano do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na noite desta quinta-feira, em Salvador.
Segundo Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores, o encontro com Abbas servirá para o Brasil tentar convencer o líder palestino a continuar no poder por meio de uma candidatura à reeleição para as eleições de janeiro de 2010.
Já Abbas quer que o Brasil pressione Israel a parar com os assentamentos em territórios palestinos. Ele também tentará angariar o apoio brasileiro para o projeto de criação de um Estado palestino independente, segundo o embaixador da ANP no Brasil, Ibrahim Al Zeben.
lula e abbas
Crédito da foto: Ricardo Stuckert/Efe

terça-feira, 17 de novembro de 2009

AVENTUREIRO

Eu Sou aventureiro e você não merece isso
Eu to comprometido em me amarrar jamais
Aliás eu tenho medo de sofrer
Antes que seja tarde então
Vamos parar com isso
Não, Não tem outro jeito já que está ficando sério
É, quando um não quer dois nunca formam um casal
Eu to mal só de pensar que vai doer
Antes que seja tarde
Então vamos parar com isso
Eu nesse faz de conta
Meu coração desmonta
Teu coração padece
Isso me entristece
Teu corpo quer um ninho
E eu, só voar sozinho
Sem metade de nada
Sigo por essa estrada

É... o destino é quem vai saber depois (saber depois)
Se vamos viver sós
Ou pra nós dois ( ou pra nós dois)
Que o bom Deus lhe conceda amor e paz (amor e Paz)
Quem sabe eu volte um dia ou nunca mais...
O destino é quem vai saber depois (saber depois)
Se vamos viver sós
Ou pra nós dois ( ou pra nós dois)
Que o bom Deus lhe conceda amor e paz (amor e Paz)
Quem sabe eu volte um dia ou nunca mais...

Grupo revelação


APAGÃO DA VIDA

Ultimanente tem se falado muito em apagão no Brasil mais porque será , se existise um plano de previdencia privada eletrica ou um plano de saude para se garantir a energia nos dias de apagão com certeza a classe burguesa os politicos nem iam se preuculpar com o apagão eles teriam dinheiro para ter o plano e não ficariam sem energia, mais como isso não existe ainda eles estão preuculpados. O Brasil vive no apagão desde o ano de1500 quando Cabral chegou em porto seguro na Bahia, e assim se deu o descobrimento, pois desde aquela epoca ja vivemos no apagão o APAGÃO da falta de saúde muitos vidas se  apagam nas filas dos hospitais por falta de atendimento humanizado, muitas crianças e jovens tambem são apagados pela falta de educação por falta de empregos , por falta de oportunidade , mais e diferença e que essas vidas são apagadas pelo trafico de drogas. e não existe uma tomada para se acender depois

IGOR MORENO
CANTO DO MUNDO

Pr'esse canto do mundo
De onde é que ele virá
Do meu sonho profundo
Ou do fundo do mar

Com que voz cantará
Com que luz brilhará
Há de vir seja como for

Pr'esse canto do mundo
De onde virá o amor?

Nessa vida vazia
Por que tarda meu bem?
Uma imensa alegria
Que se guarda pra quem?

Seja um anjo do céu
Seja um monstro do mar
Venha num disco voador
Mas que saiba que é meu
No segundo que olhar
Pelo encanto maior

Pr'esse canto do mundo
Quando virá o amor?


Caetano Veloso

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

SORTE

Na vida não basta ser bom , não basta ter anos de estudos , não basta ser competente , não basta ser o melhor, não basta querer agradar a todos , não basta ser um heroi um super homem, se não tiver uma palavrinha chamada SORTE ela não e para todos muitos a perseguem , mais poucos comseguem , se ela bater na sua porta um dia  não apenas convide para ela entra , mais sim para morar juntinho  com você

Igor Moreno

sábado, 7 de novembro de 2009

Porque o azul é azul
Porque o lilás é lilás
Por que o sim não é sul
Porque não, não é mais
Porque
Pra que definir o azul
Pra que definir o lilaz
Pra que destinguir sim de sul
Pra que igualar não e mais
Pra que
Será que um dia poderei saber
Porque, pra que, pra que, porque
Porque, pra que
Porque o azul é azul
Porque o lilaz é lilaz
Por que o sim não é sul
Porque não, não é mais
Porque
Pra que
Porque

igor moreno

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

http://www.youtube.com/watch?v=wpZmrm5Fliw

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

AMOR MENDIGO


O amor, esse mendigo,
vive batendo à minha porta
e quer água para sua sede
e me leva as roupas do corpo.
Saciada sua fome,
satisfeito, sonolento,
o amor dobra a esquina
em busca de outro porto.
De tanto entregar, exaurida
percebo que o mendigo
levou tanto, levou tudo
deixando só o vazio,
levou minha própria vida.


AUTOR IGOR MORENO

4 novembro 2009

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Afinal, quem era aquele homem, meu Deus?

andarilho-1
Cuidado! As aparências enganam...
Essa é uma das mais belas histórias que vivenciei e que jamais esquecerei.
Era uma manhã de inverno no mês de julho, e se não me engano, o ano era 2003. Eu estava a caminho da emissora de rádio na cidade de Cordeirópolis (SP), onde fazia meu programa policial das 06h30 às 08h00 da manhã, quando vi na Rodovia Washington Luís um velho andarilho caminhando em meio à neblina que tomava conta do local. Chamou-me a atenção seu jeito. Ele parecia um velho guerreiro viking, daqueles da época medieval: tinha sacos plásticos por todo o corpo, sem dentes, um cabelo amarelado e pele nordestina. Como eu sempre andava com meu gravador portátil no carro, dei meia volta e fui atrás dele achando que ia gravar uma matéria sobre o frio e a vida dos andarilhos, coisa, aliás, que sempre fiz em minha carreira como radialista, sempre estive ao lado dos mais humildes.
Meu Deus, afinal quem era aquele homem?
Que essa história te traga algum aprendizado, assim como trouxe pra mim. Percebi que não sou nada, que tem muita gente melhor que eu… Inclusive aquele homem!
Ao me aproximar dele, senti sua energia, era algo que transcendia àquela imagem desgastada pela sua situação de andarilho, era algo mais, algo que meu coração começava a sentir. Ele não era apenas um andarilho, um pobre sem lenço e sem documento, era um filho de Deus, e que filho! Sem pedir, já desci do carro como sempre fazia, já com meu gravador ligado e falando “bem, ouvintes, estou aqui na rodovia perto de um homem…” e assim foi. Minha surpresa começou quando esse andarilho começou a falar. Como somos ignorantes de nós mesmos, achei que ele ia falar com aquele linguajar rasteiro, analfabeto.
Meu Deus quem era aquele homem? De repente ele me questiona com sua voz que me lembro, era fina e rápida: “Você veio aqui para falar do frio? Por que você não usa esse seu microfone para falar dessa economia ruim ou desse médico, o Shintcovsk? (pediatra que abusava de crianças na época), e continuou: “Na época de Juscelino eu tinha esperança e os gringos querendo mandar. O dólar, essa moeda estrangeira manda em você, em mim, e o Bush vem aí com tudo, né… E essa nossa dívida externa? O PIB precisa aumentar rapaz, se não a economia vai derrapar ainda mais, e para esse país ser nação vai demorar muito ainda, o povo não sabe a força que tem”. E finalizou me perguntando o que eu achava de tudo isso!
Enquanto ele falava, eu estava lá, absurdamente surpreso, paralisado com sua inteligência e interação, me vi como um aluno e ele como o professor. Como podia um andarilho se expressar daquele jeito, saber de tudo aquilo? Meu Deus, quem era aquele homem? Diante de quem eu estava? Quem era eu naquele momento?
Mesmo sendo um repórter experiente na época, fiquei mudo. E não pensem que ele parou. Me fez outra pergunta: “O que você acha deste ministro da economia? A ex-ministra Zélia, aquela que era casada com Chico Anísio, sabia que eu gostava dela, tinha pulso, pena que se vendeu para o Collor que agora sofreu o primeiro impeachment e se tornou uma vergonha, tá tudo errado”. Sobre o Lula ele falou também. “Quero ver agora o Lula, eu queria falar com ele, não sei se vão deixar ele governar não” concluiu.
Senti vergonha naquele momento. Por isso nunca devemos subestimar as pessoas, e infelizmente a roupa que vestimos ou a casa onde moramos é o que importa à sociedade. Quem é que olha essas fotos e diz que ele tem toda essa inteligência? Vai me responda, veja as fotos de novo e me responda!
Claro que não, somos cegos da moralidade, vivemos onde os pobres se tornaram invisíveis aos olhos de uma sociedade cada vez mais longe de Jesus. Frente a ele me perguntei: como esse homem sabe ler, falar deste jeito tão nobre diante de meu analfabetismo moral? Foi aí que ele me explicou…
Foi criado na roça, perdeu cedo a família e cursou apenas a metade do primeiro ano, depois disso nunca mais leu. Porém, quando decidiu seguir a vida de andarilho aprendeu a fugir do frio cobrindo-se com jornais. A curiosidade sobre o conteúdo do seu ‘cobertor de letras’ começou a despertar, e com a ajuda de frentistas e outros bons corações estradeiros, esse homem recomeçou a aprender a ler. “Isso já faz mais de 20 anos”, me revelou na época.
Em cada posto ou ponte que dorme, pede jornais e os lê para se interar com o que está acontecendo no mundo. Incrível, meu Deus, quem era aquele homem?
A essa altura da história, minha entrevista já nem era mais sobre o frio, que, aliás, eu já nem conseguia mais sentir. A entrevista então era sobre ele próprio, pois eu já sabia que estava em frente a um grande homem.
E gente, ele me dirigiu essas palavras: “Vocês, jornalistas, têm o dever da escrita, o dever de cobrar. Cobre do FHC, o pai do real; o que é melhor: socialismo ou capitalismo? Fala aí, repórter”. E sussurrou no meu ouvido, como é seu nome mesmo? Meu nome já não tinha importância, minha faculdade era pré-primário diante da dele, eu aluno, ele professor. Gravei mais de meia hora de entrevista, e prometo a vocês que vou achar a fita (áudio), pois meu arquivo radiofônico de 17 anos é grande, e vou colocar aqui para todos ouvirem. Ele me surpreendeu, sua inteligência era superior à minha, pois eu tive escola e ele não. Fiquei fascinado por aquele velho de pernas finas, cabelos amarelados e absurdamente capaz e envolvido em pensamentos que muitos jovens universitários sequer se esforçam a ter.
Vai me responda rápido, o que é capitalismo?
Quem era a ministra no período Collor?
O que é nação?
Perguntas aparentemente simples, mas confesso que nem eu lembrava naquele momento as respostas com exatidão, mas esse andarilho sabia, e sabia muito mais. Então, meus amores, cuidado, as aparências enganam! Quando virem alguém mal vestido, não deixem seus olhos julgarem, vejam com seus corações!
Os olhos da sociedade são cegos e ignorantes; já os olhos do homem que ainda é humano, esses sim enxergam mais do que uma conta bancária, não discrimina se você é rico ou pobre.
A vida não te pedirá nada disso, esqueça. O que vai valer mesmo é ter vivido suas boas ações; teu caixão não terá gaveta e depois de três meses ninguém mais vai lembrar do seu cadáver. Agora, do outro lado desta vida, muita coisa nos aguarda, pois a vida dará para você o que você dará a ela, lembre-se sempre. Falo tudo isso porque gosto demais de todos vocês que acompanham minhas histórias aqui e quero passar um pouco do que aprendi a todos, só isso.
A única diferença dos ricos são as privadas deles, que são de bordas quadradas, e as nossas redondas. Mas o que cai lá é igual, tudo igual. Então que aprendamos a nos respeitar, e este andarilho me ensinou isso meu caro internauta “geraldiano”.
andarilho-3
Quando acabou a entrevista, me senti pequeno diante de um grande cara que eu mal sabia quem era, e não sei até hoje. Aprendi com ele as seguintes regras básicas de um humano e sua sobrevivência:
- Regra um: tua gravata não te faz melhor que minha camiseta velha;
- Regra dois: tomar muito banho ou não, não vai me fazer deixar de caminhar, ando igual ou melhor que você e ainda não fico doente;
- Regra três: teu camarão, não é melhor que meu feijão que acabei de ganhar neste posto e
- Regra quatro: até para dormir você paga, eu não. Qualquer ponte me serve.
Ouvi tudo isso, e calei minha boca. Ele estava errado?
Terminei minha entrevista, ele me pediu dois reais para um café e eu dei. Sobre a água ele disse que não sentia falta: “Muita água no corpo, a doença chega” explicou. Na verdade eu não queria que ele fosse embora, queria tê-lo mais perto de mim, sentia uma energia linda vinda dele. O homem sem dentes, de sacos nas costas e de rosto sofrido foi ficando mais longe, e sumiu em meio à neblina daquele início de dia. E eu fui correndo para a rádio de Cordeiro e coloquei a matéria no ar, e é claro, os ouvintes não acreditaram no que ouviram.
Na semana seguinte eu e minha antiga produtora, a Lia Maura Rodriguês Sorg, a “fia” da Lauri, fomos viajar para tentar encontrar aquele homem. Rodei mais de 1.500 km com a foto dele e nada, e de posto em posto ninguém jamais tinha visto aquele homem.
Não quero aqui obrigar ninguém sentir o que meu coração sente até hoje, mas eu te pergunto: quem era aquele homem?
Eu já sei quem era…
O amor jamais te esquece.

autor GERALDO LUIZ